20 dezembro 2006

Vocabulário médico na voz do povo


Nota prévia: A maioria das situações são fictícias mas os termos empregues foram recolhidos no Centro de Saúde de Olhão, sendo o espelho da confusão semântica e de vocabulário que tantas vezes existe nas cabeças dos nossos utentes... Por partilharem comigo as suas histórias, os meus agradecimentos às funcionárias administrativas Inês Simões e Fernanda Veloso, assim como à técnica de cardiopneumologia Sandrina Marto.
6h da manhã. O Sol já aparecia distinto sobre o azul celeste. Em torno da porta do Centro de Saúde, um pequeno grupo de utentes organizava-se para a marcação da consulta "à vaga". A maioria já se conhece. Afinal todos são já bem experimentados nesta forma bem própria de utilização da consulta. Aliás, o Director do Centro de Saúde até mandou instalar uns banquinhos de jardim no local, para tornar a espera mais atractiva. É uma excelente oportunidade para trocar experiências e conhecimentos, que todos vão acumulando ao longo do seu percurso de contactos com os médicos e hospitais.
A Maria do Céu vai à consulta do "Parlamento", a Dona Gertrudes vai à consulta da "Monopausa" e a Rita é que as corrige, informando-as que aquela consulta chama-se de Planeamento Familiar. Uma tem um "biombo" no "úbero" e leva os resultados duma "fotografia", outra está preocupada com comichões na "serventia" do marido, até porque ele, havia poucos dias, tinha já sido consultado pelo médico por estar com os "alforges" todos inflamados. Alguém logo ali diagnosticou um problema na "aprosta" do marido. Mais à distância desta conversa, um grupo de senhoras falavam dos métodos contraceptivos e, uma delas, peremptória, afirmava que nunca aceitaria porem-lhe uma "fateixa" dentro da barriga! Uma outra discordava, e lá lhe foi dizendo que por causa disso é que teve tantos filhos, felizmente todos de parto normal, só o último foi de "açoreana", mas aquele que lhe dava mais problemas era o mais velho, que já era "toxico-correspondente"! Noutro local, um grupo de homens mais idosos ia falando da relação entre o "castrol" e a "atenção". Às tantas um deles começa a explicação cuidada dum acidente que tivera. Por isso é que tinha a vacina contra o "tecto" em dia, mas o acidente estragou-lhe a "tibiotísica" e causou-lhe uma hérnia "fiscal", pelo que tinha ido fazer uma "fotocópia" e um "traque". Outro referiu que nunca teve problemas de ossos, o seu problema era uma grande "espirrogueira na peitogueira". Uma senhora, atraída pela conversa, queixava-se de entupimento no "curso" com dores "alucinantes" quando se "abaixava". Além disso cobria-se de suores e "gómitos", ficava "almariada" e tudo acabava com uma forte "encacheca", ficando cerca de 3 dias com cara de "caveira misteriosa". Alguém lhe falou nuns supositórios que a poderiam ajudar mas ela já os conhecia, aparentemente tinham sido muito difíceis de engolir, pelo que o melhor ainda era o "clistério". Finalmente, uma outra senhora queixava-se da "úrsula" no "estambo", pelo que vinha mostrar o resultado duma "endocuspia" e ainda algumas análises especiais, como a Proteína C Reaccionária.

8h:30 h da manhã. Ainda havia muito para conversar mas a Inês, jovem funcionária administrativa do Centro de Saúde, obviamente tarefeira, acaba de chegar. Os funcionários administrativos não podem chegar atrasados, caso contrário, confundir-se-iam com os doutores. - Quem é o primeiro, se faz favor? Ora diga lá o seu nome?
- Josefina Trindade.
- Idade?
- 67 anos.
- Estado...?
- Constipada, muito constipada!

9h da manhã. Aparece a enfermeira Freitas que grita para a pequena multidão barulhenta que cerca a Inês:
- Quem está para medir as tensões? É você? Então entre e diga-me, qual é o seu problema?
- Sabe, senhora enfermeira, o meu problema é ter uma doença"arrendatária" que "arrendei" do meu pai e já me levou uma vez aos cuidados utensílios"do hospital. Afecta-me as "cruzes renais" e por isso dá-me muita "humidade" à volta do coração". Aliás, o doutor pediu-me uma "pilografia" e um"aerograma" que aqui trago e recomendou-me beber pouca água.

Finalmente, chega o médico, que logo dá início às consultas:
- Então de que se queixa?
- De uma angina de peito, senhor doutor. Tudo começou há uma semana quando fui às urgências. O médico disse-me que era uma angina na garganta, mas a angina começou a descer e agora apanha-me o peito todo!
Alguns perguntavam à Inês onde era o "pechiché da retrosaria" para pagarem a taxa moderadora. O senhor Batista foi dos utentes que saiu mais zangado da consulta. Permaneceu estoicamente na fila desde as 5:30 h da manhã e, agora, o médico tinha-lhe dito que o seu atestado para carta de condução era com outro: o Delegado de Saúde. Finalmente é chamado pelo Delegado de Saúde para o exame do atestado:
- Sr. Batista, faça-me o favor de pôr o dedo no nariz. Não, senhor Batista, não é no meu, é no seu nariz!
O utente estava muito nervoso e depois do primeiro falhanço achou por bem enterrar o dedo profundamente nas fossas nasais! O Delegado de Saúde desiste:
- Muito bem, senhor Batista! Fica com a carta com as mesmas restrições anteriores. O Sr. Batista saiu radiante - tinha, pelo menos, mais 2 anos de carta para conduzir - e ao passar pelos outros utentes que ainda esperavam, avisou:
- Espero que estejam constipados, porque só passa quem tiver uns bons macacos para tirar do nariz!
(recebido por email)

4 Comments:

Anonymous Chico pisca (olho cansado) said...

É "munta" grande!!
Amanhã leio!

20/12/06 22:25  
Blogger Asas said...

Da cantiga é que eu gosto!!!

21/12/06 12:03  
Anonymous António Gil said...

Pois é pena que só a cantiga desperte algum interesse.

25/12/06 23:16  
Blogger Asas said...

Ora essa!...

27/12/06 09:50  

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