Estamos cozidos? (JAN2010)

E, se de início alguns falam, contestam, estranham, outros há que simplesmente se acomodam e ficam indiferentes. Como quem diz “Tudo bem, enquanto não me tocar a mim”.
Até mesmo as parangonas dos jornais e os noticiários da TV, em vez de despertarem consciências, saturam as pessoas que preferem enfiar a cabeça na areia.
Hoje li quatro títulos que são um reflexo, uma pequena amostra, do que se passa hoje na nossa sociedade: “Lei safa condutor que matou e fugiu”; “Abusa de alunos e continua solto”; “Desemprego em níveis históricos”; “Gang de romenos aterroriza ourives”.
Olivier Clerc, um escritor suíço é autor de uma parábola muito interessante que caracteriza bem este estado de coisas e como o ser humano tem a capacidade de se acostumar a tudo, a ponto de, ao fim de um tempo, considerar tudo normal.
“Uma rã nada tranquilamente numa panela com água fria. Então alguém acende um pequeno fogo debaixo da panela e a água vai aquecendo muito lentamente. Aos poucos a água vai ficando morna mas a rã não acha que esteja em perigo, até se sente mais confortável, e continua a nadar.
Quando a água atinge uma temperatura razoável, ela já se sente um pouco cansada, mas continua sem medo.
Até que a água atinge uma temperatura alta e a rã entra em pânico, mas já está muito debilitada e acaba por morrer”.
Se a mesma rã tivesse sido lançada à água quando esta estava já numa temperatura insuportável, ela teria saltado imediatamente para fora da panela. Mas como o aquecimento foi gradual ela foi-se acomodando e acabou por morrer.
A pergunta que se coloca é se a sociedade portuguesa não estará já meio cozida, ao ponto de já não ter capacidade de saltar para fora da panela.
Maria de Portugal